Sábado, 16 de Agosto de 2008

ANTÓNIO SERRALHEIRO FULGÊNCIO

Sobre António Fulgêncio, escreveu assim Francisco Henriques no prefácio do livro “ALMEIRIM, MINHA TERRA, MEU ENCANTO:

        Diz Fernando Pessoa num dos seus poemas Ocultistas, que

A morte é a curva da estrada, Morrer é só não ser visto.

           .

Será. Mas até dobrarmos o “cabo das tormentas” e alcansarmos os companheiros de jornada que se nos adiantaram, a saudade é dolorosa e inevitável.

Ao percorrer em pensamento a vasta galeria dos ausentes, revejo a imagem viva do António Fulgêncio, meu condiscípulo, amigo íntimo e sem mácula durante mais de sessenta anos.

Muito novo o conheci, vinha da Troia, (bairro de Almeirim) que para mim, menino tímido e confinado aos estreitos horizontes da sua rua, era como que um reino lendário e misterioso lá para os confins do Val’Virgo.

Chegava à aula sempre acompanhado do José Padre, seu vizinho e amigo, o que levou a dona Fernanda Sousa Gomes, nossa professora – e que professora! – A comentar certa vez:

- Lá vem o Padre e o Sacristão!

Por ser tão bom saltador, foi mais tarde guarda-redes do União.

Saídos da escola e sem asas para mais largos voos, seguiu cada um o seu destino – ele o de marçano, eu o de amanuense. Mas a mútua afeição manteve-se ininterruptamente vida fora.

Com os olhos benevolentes da amizade, via em mim um modelo nas manifestações do espírito, quando a triste verdade é que nunca fui modelar em coisa nenhuma.

Apurou a caligrafia; dedicou-se ao desenho e à caricatura; ao jogo das damas e ao charadismo;  e claro está, à poesia.

Autodidacta, tomou-se também do gosto pelos livros.

Morreu novo, súbita e inesperadamente, no local de trabalho – A velha e concorrida Loja Popular, em cuja montra exibia semanalmente uma quadra publicitária dos artigos expostos, por ele feita e desenhada em pura letra comercial.

                                                       Prefácio de  Francisco Henriques

.

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São precisamente algumas dessas quadras publicitárias a que se referiu o poeta Francisco Henriques, e que constam do livro acima referido que aqui vos deixamos.

.

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                  Botões

Os botões são sentinelas

Que vigiam das guaritas;

E quem passar ao pé delas

Vê caras muito bonitas.

.

Uma frase, já corrente,

O tom da moda, é garrido;

Mas sem o botão atraente

A graça; - foge ao vestido!

.

             Boné

Temos a invernia à porta

São tormentos e aflições;

O boné tudo suporta

Combate as constipações.

 

Numa noite, hora tardia

Onde reinava o silêncio;

Voz distante ainda dizia…

Boné bom, - só no Fulgêncio.

.

Mas António Fulgêncio não se ficou pelas suas quadras publicitárias. Também escreveu por exemplo este soneto e muitos outros.

Devo confessar que o meu preferido é aquele que ele dedica à sua VELHA ESCADA:

.

.

                AO AMANHECER

.

Manhã. Por entre folhas aparecem

A dar-nos os bons dias as lindas flores

Que nos presenteiam com seus odores

Que os nossos corações muito agradecem.

.

Pena é quando os dias entardecem

E que tombam aos tórridos calores,

Não tenham já vida seus multicores

E as plantas uma a uma desfaleçam.

.

Mais ao longe de ramo em ramo adejam

Abelhas operárias que mourejam

P’ra não faltar no seu cortiço o mel,

.

Se fossemos como elas operosas

As existências eram mais ditosas

A vida nunca saberia a fel.

.

              (página 15 do livro)

.

.

....................  A MINHA VELHA ESCADA ....................

.

Se Deus nos dá a resignação, para o Sacrifício resignado é o sacrifício da minha escada.

.

Ó velha escada, minha companheira

Em nova eras tão leve no transporte,

Tiveste na existência a mesma sorte

Que acompanhou teu dono a vida inteira.

.

Quando chegar a hora derradeira

Velhos, gastos, cansados e sem norte

Até parecerá suave a morte

E prémio à nossa vida de canseira.

.

Mas enquanto esse dia não chegar,

Eu vou subindo sem te magoar

Os teus já decrépitos degraus,

.

Muito ao de leve, porque estão velhinhos

E no presente querem só carinhos

Para te suavizar os dias maus.

.

.

(Página 35 do livro)

.

.

Nota: Os livros referidos neste blog podem, pelo menos alguns deles, ser consultados na Biblioteca Municipal de Almeirim, e provavelmente adquiridos.

 

publicado por João Chamiço às 23:20
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